Jean Nouvel


O arquiteto francês Jean Nouvel, ícone da arquitetura francesa e vencedor do prêmio Pritzker em 2008 pelo conjunto de sua obra, esteve em São Paulo em abril de 2016 e em entrevista citou os desafios da arquitetura contemporânea. O arquiteto é reconhecido mundialmente por suas obras audaciosas e imponentes.

Confira abaixo a entrevista que Jean Nouvel concedeu ao Jornal O Globo.

Para que serve a arquitetura?

Vou responder a essa pergunta mudando a formulação: para que servem os arquitetos hoje? Porque a verdadeira questão que se impõe é sobre o desaparecimento do papel social do arquiteto. O arquiteto sempre esteve aqui para definir opções dentro de uma dimensão humanista, poética, transcultural. Ele deve trabalhar tão bem na escala da cidade como na escala de um bairro e de um prédio, tão bem no exterior quanto no interior, na paisagem urbana como na paisagem natural. Hoje, tudo isso foi confiscado. Quero dizer, com isso, que todas as grandes decisões de ordenamento do espaço no século XX foram tomadas à parte da arquitetura, como se o urbanismo fosse uma disciplina paralela, “superior”. Estamos vendo, há praticamente um século, os resultados dessa falta de visão e de previsão daqueles que decidem sobre a evolução de uma cidade. Essa é uma questão muito importante. Se o arquiteto desaparecer, não haverá mais pessoas para defender os moradores em termos de prazer de viver, de proporção, luz, paisagem, de visão cultural. Todos estão se lixando. E ainda por cima há a pressão econômica, os empreiteiros que querem manter uma faixa de rentabilidade. Ninguém leva em conta o custo social de uma arquitetura tão desastrosa. Isso acaba saindo muito caro à comunidade.

Qual é, então, a tarefa do arquiteto hoje?

A cidade é um museu. Um livro de pedra, que conta sua história por meio da petrificação dos desejos de diferentes gerações. A tarefa do arquiteto hoje é trabalhar sobre os territórios onde se construiu demasiadamente nas últimas décadas, para transformá-los. Esta é uma época de mutação. De trabalhar complementaridades. De dar uma alma aos bairros feitos na urgência, fruto de um planejamento tecnocrático que perdurou no século XX, e torná-los locais de prazer e de bem-estar.

Há solução para as cidades?

Não há nenhum motivo para vivermos no meio urbano pior do que no campo. Na cidade todas as razões estão lá para desagregar, mas é preciso parar de usar isso como desculpa para não fazer a arquitetura necessária.
Este é inclusive o tema da 15ª Mostra de Arquitetura da Bienal de Veneza, em maio, “Reporting from the front” (Relatos do front). Há dicotomia entre o mundo dos grandes projetos, de orçamentos vultosos, e o das questões sociais?
Para resolver a questão da moradia social será preciso que todos os atores sociais compreendam que esse é um problema real. Tive uma experiência com moradia social na França (em Nîmes, em 1987), e o tema me interessa. Queríamos provar que, com o mesmo valor, era possível fazer moradias com o dobro do tamanho, que era possível “desrespeitar” normas técnicas para fazer fachadas que se abriam em pátios. Conseguimos, mas sempre entram fatores que não são do universo da arquitetura — políticos, financeiros. Por isso digo que é preciso um movimento conjunto para implementar esses projetos, que são possíveis.

O senhor disse certa vez: “O estilo, para mim é um obstáculo”. Qual é então a marca de um projeto com a sua assinatura?

Não gosto de partir de materiais e conceitos determinados. Prefiro pensar cada projeto como algo nascido de uma série de fatores, um cruzamento de referências culturais, históricas, de avaliação das possibilidades. Na Torre Rosewood, por exemplo, vou usar madeira e aço corten e muitos terraços e pátios com árvores, para dar continuidade ao que já existe no local. A escala das janelas, a relação entre o espaço exterior e interior, tudo vai refletir a ideia de pertencer a um lugar, a uma história. Se uma arquitetura não pertence a uma geografia e a uma história, ela é do mundo global, cai de paraquedas. Esse projeto não caiu de paraquedas, partiu de baixo, da minha análise do local e da cidade.

Fonte: Jornal O Globo