Estudo de um projeto conceitual para Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) é selecionado para a mostra internacional da Bienal de Veneza 2016


O escritório SPBR Arquitetos, comandado por Angelo Bucci, foi o único brasileiro escolhido por Alejandro Aravena para participar da Bienal de Veneza 2016. 

Em entrevista, Bucci disse que participar do evento é uma oportunidade de trocar ideias com outros profissionais da área. O projeto conceitual apresentado para o Museu de Arte Moderna (MAM), na cidade de São Paulo, fez parte do 33º Panorama de Arte Moderna do Museu, em 2013.

A proposta é formada por quatro prismas idênticos, de 750 m x 10 m x 10 m, e vãos de 75 m, dispostos entre si para formar um quadrado perfeito. Ao centro, o conjunto arquitetônico de Oscar Niemeyer unificado pela marquise. Os quatros prismas fazem um percurso em série e 'circular', com três km de extensão. O piso é transparente, o que garante a vista para o parque.

A intenção do projeto de Bucci é de que o MAM levite sobre o Parque do Ibirapuera, e tem, como propostas para vivências arquitetônicas, o teto da marquise transformado em parque, teto jardim como um segundo andar do local. Também é pretendido que um túnel de 150 m, já presente no parque, mas abandonado, sirva como espaço para exposições, performances, shows ou festas. Há, além disso, a ideia da execução de uma Oca invertida, que seria usada como rampa de skate.

Confira abaixo a introdução deste estudo e o Memorial proposto para o MAM.

O projeto surgiu pelo convite de Lisette Lagnado, curadora, e Ana Maria Maia, curadora-adjunta, para o 33º Panorama, em 2013. Trata-se de uma importante mostra [Panorama da Arte Atual Brasileira] organizada a cada dois anos pelo Museu de Arte Moderna [MAM] de São Paulo. A mostra de 2013 foi concebida como um panorama propositivo provocado pela seguinte pergunta formulada pela curadoria: “Um novo MAM por que e para quem?”. Para respondê-la, além de um grupo de vinte e cinco artistas escolhidos, a curadoria selecionou também sete escritórios de arquitetura [Andrade & Morettin, SPBR, GrupoSP, SUBdV, Y-Arquitectura, Tacoa e Usina]. Claro, o modo como um arquiteto responde a uma questão é através um projeto. Projetos que entram em cena, nesse caso, para alimentar o debate e para expandir o campo de possibilidades de respostas à questão proposta. 

O MAM de São Paulo foi fundado em 1948 por Cicillo Matarazzo, no ano seguinte ganhou sede no mesmo edifício onde funcionavam os “Diários Associados”, no centro de São Paulo. 
Paralelamente, àquela altura já estava em projeto o Parque do Ibirapuera por Oscar Niemeyer e Burle Marx e que seria inaugurado em 1954, por ocasião do quarto centenário da cidade de São Paulo. 
No início dos anos sessenta a gestão do MAM entrou em tal crise que culminaria com a transferência de todo o seu acervo, em 1963, para a Universidade de São Paulo, USP, compondo o Museu de Arte Contemporânea da USP. 

Ainda correndo em paralelo, em 1959, por ocasião da 5ª Bienal de Arte de São Paulo, a ilustre arquiteta Lina Bo Bardi propôs a exposição paralela “Bahia no Ibirapuera”. Para tal exposição, ela encerrou uma área de 400 m2 que foram subtraídos do espaço aberto da marquise do Ibirapuera. Após a realização da mostra, no entanto, aquele espaço não foi liberado, ao contrário, serviu por dez anos como depósito de apoio para Bienal de Arte de São Paulo.

Seis anos após a dissolução do acervo do MAM, em 1969, o museu ressurge através de uma exposição: era o primeiro Panorama de Arte Atual Brasileira. É nesse momento as duas histórias paralelas se unem, pois o primeiro Panorama teve lugar no antigo “Pavilhão Bahia”. O primeiro Panorama, feito com projeto de instalação de Giancarlo Palanti, acabaria por consolidar naquele mesmo endereço a sede permanente do MAM que ressurgia sob a marquise do Parque do Ibirapuera.

Em 1982, Lina Bo Bardi, juntamente com Andre Vainer e Marcelo Ferraz, volta à cena para o projeto de uma remodelação que ampliaria para 900 m2 a área encerrada pelo MAM sob a marquise do parque. 

O excelente artigo escrito por Mara Gama, para a Folha de S. Paulo, 14 de julho de 1998, parcialmente transcrito abaixo, dá o tom do debate sobre o tema da ocupação da marquise logo após a implantação do seu projeto de 1982 e evidencia que a questão trazida pelo 33º Panorama tem antecedência e pertinência, é uma questão crucial para as duas instituições, o MAM e o Parque, que caminham juntas há 45 anos. 

No primeiro ano do novo museu, Lina ficou descontente com a maneira de expor as obras. Em carta enviada à coordenação do mam, em setembro de 1983, a arquiteta defende a retirada dos painéis. Sua insatisfação perdurou e, em dezembro, Lina, Vainer e Ferraz fazem uma autocrítica pública: "A exposição montada apinhadamente e diletantemente pela equipe do mam destruiu as bases arquitetônicas do projeto. O mam teve a ajuda do Poder Público para servir a população de São Paulo e o resultado obtido demonstra que nossa atitude profissional foi errada. Ao invés de reconstituir o mam, devíamos ter reconstituído o projeto original do arquiteto Oscar Niemeyer e liberado a marquise."
A arquiteta volta a insistir em carta publicada pela Folha, em 16 de junho de 1984: "Tendo chegado ao meu conhecimento que, para ampliar o Museu de Arte Moderna (...), foi invadido um ulterior espaço da marquise, esclareço o seguinte: o projeto do museu (...) teve como princípio a preservação visual da marquise de Oscar Niemeyer, através de uma grande parede de vidro, recuada da estrutura portante. Dita ampliação, feita à revelia do arquiteto, fere (como intervenção descontrolada) não somente a ética profissional, como permite, democraticamente e legalmente a ocupação (...) de parques e áreas públicas pelas entidades mais diversas, o que representaria um perigo a mais para as áreas públicas da comunidade."
O museu cresceu e planeja expandir-se, incorporando mais uma parte da marquise. Os defensores da obra de Niemeyer consideram um erro tratar a marquise como um telhado e uma calçada prontos para serem recheados. Propõem como alternativa realocar fora do parque Detran, Prodam e museus abandonados para instalar mam, MAC e usar o Ibirapuera como espaço cultural, sem para isso descaracterizar sua obra inaugural.



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Para formular uma resposta adequada à pergunta de Lisette Lagnado não basta julgar ou tomar partido em favor de um dos dois célebres arquitetos, Lina Bo Bardi ou Oscar Niemeyer. Não basta decidir pelo MAM ou pelo Parque. Ao contrário, ela requer a consideração das precedências, do convívio por vezes conflituoso entre as duas instituições, para formular uma proposta que supere pela síntese as aparentes dicotomias que a questão suscita e personifica em diferentes atores conforme o contexto: Niemeyer e Bo Bardi; MAM e Marquise; parque e cidade.

Imagine só: um museu que está, ao mesmo tempo, dentro e fora do parque. Um edifício que abarque distintas escalas de tempo, sincronizado tanto com o lazer no parque quanto com a pressa das avenidas. Uma construção que ora se perceba na escala de um edifício, ora na escala urbana. Um prédio que não se possa abarcar por inteiro pela visão, mas que se possa inferir claramente pela lógica e pelo seu significado. Um edifício cidade. Um museu que tenha em seu acervo permanente jardins de Burle Marx e edifícios de Oscar Niemeyer. Não é pouco. 

Qual seria a forma perfeita? Qual a dimensão adequada?

Um quadrado de 750 m de lado. Apesar da perfeição geométrica e da grande dimensão, a sua inserção no contexto tem uma precisão fina, relojoaria. É inclusive difícil dizer se é uma inserção ou uma revelação. Afinal, a figura, quadrado, com essa dimensão, 750 m, já estavam lá. A sua implantação já tinha o seu lugar definido desde a origem daqueles edifícios. Pode-se dizer que nós nos servimos oportunamente da mesma matriz geométrica que guiou a implantação proposta dos edifícios de Oscar Niemeyer. Assim, a nossa proposta para o Novo MAM junta duas características raras de serem combinadas: um absoluto rigor geométrico aliado a uma grande versatilidade de acomodação ao contexto pré-existente. Por isso nenhuma árvore precisa ser removida, nenhuma rua ou caminho, alterado. 

A formulação que apresentamos faz supor que o encontro do MAM com o Parque foi profícuo, que o debate entre Lina Bo Bardi e Oscar Niemeyer enriquece nossa cultura construtiva, como se o MASP e o Ibirapuera pudessem se aliar. O Novo MAM SP quer demonstrar que diante da questão que nos foi proposta e honrando as antecedências é possível configurar o museu, o parque e a cidade de um modo como único e sem paralelo possível no mundo.

1. Imagine: Um Museu de Arte Moderna que tem em seu acervo permanente jardins de Burle Marx e edifícios de Oscar Niemeyer. 

2.  Em 1948, ano de fundação MAM por iniciativa de Ciccillo Matarazzo, já se acalentava a ideia de um novo Parque do Ibirapuera. A ideia se consolidaria oficialmente em 1951, quando o governador constitui uma comissão, coordenada por Oscar Niemeyer e Burle Marx,  para elaboração do projeto do parque que se inaugurou em 1954, marcando as celebrações do IV Centenário da cidade de São Paulo. [Duas iniciativas guiadas por uma convicção compartilhada: um projeto para o futuro da cidade de São Paulo].

3. Em 1982, MAM e Parque do Ibirapuera, as duas instituições vizinhas no tempo desde a origem acabavam por se tornar também vizinhas no espaço: o Museu encontrava abrigo sob a generosa marquise do Parque a partir de um projeto feito por Lina Bo Bardi. Então, o Parque ganhou o MAM [ou vice-versa].

4. Em vista aérea, na configuração atual, o MAM não se mostra, ele está oculto sob a marquise. 

5. Em vista aérea se vê, no meio do parque de Burle Marx, o desenho de Oscar Niemeyer: formas puras para os cinco edifícios, aqueles com programas definidos, e a sinuosidade da marquise, com seu programa. Sobressaem a exuberância e a liberdade do desenho da marquise. O rigor geométrico que ordena a implantação dos edifícios, à primeira vista, é mais difícil de ser notado.

6. Em vista aérea se veem também antigas porções de parque que foram cindidas ou cedidas [ou invadidas]. O parque perdeu áreas. 

7. Sessenta anos após o surgimento do MAM e do Parque do Ibirapuera, cabe perguntar: Como lançar adiante esse legado? Ou: qual seria a melhor configuração futura para estes dois personagens cruciais da história da cidade de São Paulo? 

8.Esses temas, entre outros, estão subjacentes à questão que nos foi proposta: Um novo MAM, por que e para quem?

9. Um novo MAM como qualquer outro museu: como um dispositivo que aguça a nossa percepção sobre o mundo. Por quê? Um museu cujo acervo é constituído, em igual valor, tanto pelo que está dentro quanto pelo que está fora dele, feito de tal modo que o que ele contém explode e o que está fora é tragado para o seu interior. Enfim, um museu de tudo. Para quem? Um museu que exiba o seu acervo aos visitantes, mas, além disso, que surpreenda também a quem passeie pelo parque, a quem passe apressado e preso num carro e no tráfego nas avenidas. Enfim, um museu de todos. 

10. Como? E, então, ele se distingue de qualquer outro museu. A proposta é óbvia, mas não tão evidente porque ela combina aparentes opostos: é extenso como aquilo que a vista não pode abarcar e meticulosamente preciso como um artefato que só pode ser feito à lupa; mesmo implantado num contexto tão complexo ele não descarta nenhuma pré-existência nem exige qualquer pré-requisito. Ao mesmo tempo, alcança a perfeição de uma forma geométrica pura e perfeita. Pode-se dizer que, de certo modo, é mais um achado do que uma proposta, porque é como se ele já estivesse ali perfeitamente delineado, apenas a espera de ser descoberto.

11. Quanto? Quatro prismas idênticos. 750 m x 10 m x 10 m; 10 vãos de 75 m. Cada edifício tem três vezes o comprimento do edifício da Bienal e um quinto da largura de cada uma de suas três lajes. Dispostos entre si para formar um quadrado perfeito. Ao centro, o conjunto arquitetônico de Oscar Niemeyer unificado pela marquise. É esse conjunto que irradia a geometria em que o novo MAM se insere. Os quatro prismas fazem um percurso em série e ‘circular’ com 3 km de extensão. Área de cada prisma é 7.500 m2, área total 30.000 m2 entre áreas cheias e vazias [de puro parque]. 

12. Em seção transversal, o pé direito é total, apenas eventualmente quebrado por um ou outro mezanino [administração, acervo, café, restaurante e moradias temporárias para artistas convidados]. O piso é transparente, vitrine do e para o parque.  O teto é uma laje técnica que abriga todos os equipamentos mecânicos exigidos pelo programa.
As fachadas calibram a luz em gradientes entre a transparência total ao completamente opaco conforme a orientação geográfica e conforme o que se quer expor dentro ou fora do edifício.

13. O novo MAM está no Parque e também fora dele. Ou seja, em alguns trechos ele ultrapassa as barreiras das avenidas e reconquista para o Parque uma dimensão perdida. 

14. O novo MAM retribui a generosidade recebida da marquise do Ibirapuera, agora é ele que parece abrigar o parque inteiro [ao mesmo tempo em que a marquise é liberada para os programas abertos que lhe são típicos]. Então, o MAM ganha o Parque [ou vice-versa]. 

15. O novo MAM se desprende, agora ele levita sobre o parque, sobre as avenidas. É museu nos dias de trabalho e finais de semana. Um edifício cuja totalidade pode ser facilmente inferida, mas não se mostra senão por partes. Uma obra que a vista não pode abarcar inteira, para dizer o que deseja: Uma arquitetura para ser apreendida de olhos fechados.

Propostas para experiências [vivências] arquitetônicas no Parque / MAM:

E1. O parque/mam sobe sobre a laje da marquise. 
O teto da marquise transformado em parque, teto jardim como um segundo andar de parque. As rampas de acesso são as coberturas inclinadas da Oca e do Auditório.

E2. O parque/mam ocupa o túnel.
Há uma seção, com 150 m de extensão, de túnel abandonado sob o parque. É o trecho que faria a ligação com a Avenida 23 de Maio no sentido centro. Esta ligação foi abortada durante a obra pela constatação tardia de que, se aberta, ela congestionaria toda a extensão do túnel naquele sentido. Através de um dos dois poços feitos para acesso à obra, aquele que ficou ao lado, e fora da projeção, do auditório, é possível prover acesso para aquele trecho de túnel perdido. Espaço para exposições, performances, shows ou festas.

E3. O parque/mam atravessa a Oca.
As dimensões da Oca surpreendem. Setenta metros de diâmetro, dez mil metros quadrados. Cada uma daquelas janelinhas tem dois metros de diâmetro. A proposta é a instalação de um duto que ligue duas daquelas aberturas diametralmente opostas e permita que o externo, o parque, atravesse por dentro do edifício.

E4.  O parque/mam inverte a Oca.
A cúpula da Oca rebatida para baixo a linha do chão, com medidas idênticas, como uma cratera na superfície do parque. Rampa para skatistas. Consciência das dimensões.

E5. O parque/mam escuta o túnel.
O trecho do túnel sob o lago é feito a céu aberto como um canyon. De modo que do túnel se vê o céu. E do parque se possa ouvir, vindo do meio do lago, o ronco dos automóveis invisíveis. 

 

Fonte: spbr